Orgulho de ser mecânica

Conheça Evelin Pacchi, uma mulher que realizou o sonho de reparar carros no chão de uma oficina

Por: Redação

Evelin Pacchi

Não se surpreenda quando você entrar na Auto Mecânica Scopino, na capital paulista, e der de cara com uma mulher de aparência frágil, mas em um uniforme de mecânico e metendo a mão na graxa. Ela é Evelin Pacchi, uma menina mulher de 31 anos que pega no batente e não tem medo de enfrentar o duro dia a dia de uma oficina. Para ela, “o ambiente de trabalho de uma oficina é o melhor que existe”.

A razão dessa entrevista é simples. Em 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Não é mais novidade que elas estão dominando o mercado de trabalho em todas as áreas e que, agora, se destacam também no setor da reparação automotiva. O ambiente tradicionalmente dominado por homens está ganhando cada vez mais o toque feminino e o cuidado de mulheres que não têm medo de enfrentar as dificuldades encontradas no mercado da reparação.

Em um bate-papo animado, Evelin nos contou a sua história, sua paixão por mecânica, suas expectativas e sua batalha diária no chão da oficina. Confira:

Notícias da Oficina: Como você se interessou por mecânica?

Evelin Pacchi: Foi em 2002. Na época eu trabalhava como frentista em um posto de gasolina, fiquei lá por quatro anos. Aprendi a fazer troca de óleo, porque essa prática nos postos gera um dinheiro extra, de comissão, no salário. Eu tinha 25 anos. Eu vi na mecânica a oportunidade de melhorar de vida. Atingi o meu objetivo que era ter uma profissão.

NO: A partir do interesse, o que você fez?

EP: Em 2004 eu resolvi ir atrás, mas acho que fui até tarde. Fiz cursos de noções básicas de mecânica em veículos leves, Ciclo Otto e metrologia no Senai Ipiranga. Mas eu não tentei seguir a carreira de imediato por insegurança. Fiquei um tempo em outras áreas e, em 2008, resolvi fazer um curso de injeção eletrônica.

NO: E como você entrou definitivamente no mercado?

EP: Eu recebi um email de uma mídia voltada ao setor de reparação e deixei meu currículo no mural de vagas na esperança de haver uma oficina que contratasse mulheres. Foi aí que o Scopino (Pedro Luiz Scopino, proprietário da Oficina) me encontrou. Estou há quatro meses na oficina e é o meu primeiro emprego na área automotiva.

NO: Como é trabalhar em um ambiente que é mais masculino?

EP: Pra mim foi interessante. Não há competição e sim um equilíbrio. Os rapazes da oficina me dão apoio, me esclarecem dúvidas, me dão suporte para trabalhar. Estou aprendendo muito com eles.

NO: E quais foram as suas dificuldades?

EP: Quando terminei os cursos, não fui de imediato procurar algo na área pela insegurança. Eu achava que uma oficina com homens não poderia contratar mulheres. Mas eu senti que precisava ir atrás. A insegurança de começar a procurar na área foi a principal dificuldade. Agora tudo tá mais fácil, fui muito bem-recebida pelo mercado. Já passei por alguns perrengues também. Uma vez não consegui encaixar uma pastilha de freio (risos) em um carro, mas parei, respirei, contei até dez e consegui terminar o trabalho.

NO: E como você vê o mercado de reparação para as mulheres?

EP: A mulher tem total capacidade de se dar muito bem na profissão. Pessoalmente, não tenho contato com nenhuma outra, mas já li depoimentos de mulheres que têm histórias de sucesso. É uma área muito gostosa e promissora. Para as mulheres que gostam de carros e disposição para trabalhar não tem coisa melhor.

NO: E o que você recomenda para quem quer virar mecânica?

EP: É correr atrás do sonho. Mas não pode deixar de estudar, de procurar conhecimento. O Senai é uma ótima opção para quem é principiante e lá são abertas muitas portas, mesmo para quem começa no curso básico de mecânica. É só buscar a oportunidade, porque as portas estão abertas para quem quer trabalhar realmente com isso.

NO: Você era a única mulher no Senai?

EP: Quando eu comecei os cursos, havia apenas uma mulher, que não queria ser reparadora. O interesse dela era conhecer mecânica para vender carros, porque ela trabalhava em uma concessionária.

NO: Quais suas expectativas profissionais?

EP: A tendência é crescer profissionalmente. Comecei agora como auxiliar, quero conhecer mais, aprender tudo o que preciso e um dia ter minha própria oficina, com muitas mulheres trabalhando comigo.

NO: Como a sociedade encara o fato de você ser mecânica?

EP: Os clientes da oficina se assustam no primeiro momento. Acham que o serviço é pesado, que não é para mim. Alguns admiram, outros tm preconceito. Tem cliente que pede só para eu mexer no carro, porque acha que mulher é mais cuidadosa, tem o toque feminino na limpeza, no manusear das peças e o cliente repara nisso. Meus amigos se orgulham e sentem admiração pela minha profissão. Hoje a sociedade encara de maneira positiva.

NO: Você me disse que é casada. Como seu marido reagiu?

EP: Ele nunca imaginou, mas me deu apoio, porque sabia que era o que eu gostava. Foi ele quem ficou no meu pé para ir atrás do meu sonho de ser mecânica, de correr atrás de cursos e de empregos. Ele me incentivou muito e hoje é um orgulho para ele dizer que eu sou mecânica.

NO: É prazeroso ser mecânica?

EP: Com certeza. Já trabalhei em outras áreas e sempre reclamava, porque eu não gostava, não era feliz. Na oficina, não. Eu chego cansada em casa, toda roxa, machucada, dolorida, mas satisfeita com o meu trabalho. Eu vejo como o dia foi proveitoso, o que eu aprendi. Fico com a sensação de dever cumprido. A oficina é a minha escola diária, eu costumo dizer que estou ganhando para aprender. É um orgulho, porque estou mexendo com vidas também, temos responsabilidades. Damos tudo de nós para fazer o melhor e amanhã não acontecer o pior.

NO: Em que área de um carro você gosta de reparar?

EP: Eu gosto de motor. A parte interna, a combustão, a gestão do motor. Aqui na oficina eu fico na parte de freios e suspensão. Gosto muito de injeção, que é a área que estudei, tenho conhecimento. O essencial hoje é saber sobre injeção e estou buscando me aperfeiçoar mais ainda. Mas quero saber de tudo um pouco. O mecânico tem que ser completo, de carburador à injeção, do manual ao automático.

NO: Você gosta de mexer em carros Volkswagen?

EP: Eu gosto de reparar modelos da Volkswagen. São carros fáceis de mexer, não tenho dificuldades. Eles têm bom espaço para trabalhar, fica mais fácil o manuseio de ferramentas, checar melhor onde está o problema. Gosto muito de reparar o Gol bolinha, é o meu preferido.

NO: Qual sua visão de reparador ideal?

EP: Não pode deixar de ser profissional. Não pode omitir as coisas, é essencial ter um trabalho transparente. Ser verdadeiro significa muito para conquistar seus clientes, porque hoje eles também sabem o que está certo ou errado no carro.

NO: Como o mecânico pode se preparar?

EP: Agora é a hora de correr atrás de conhecimento. Mecânico parado no tempo vai encalhar no mercado. O interesse por informações é o que vai mandar, vamos ter que saber de tudo, nos atualizar para crescer. Todos terão essa chance. Já faço isso, pesquiso em sites, compro livros, faço cursos, porque sei que o mercado vai precisar de profissionais completos. Não podemos parar, porque a cada ano temos tecnologias diferentes no mercado.