Volkswagen, a marca da paixão

Em entrevista exclusiva para a revista Notícias da Oficina, o reparador Emerson Renato, um aficionado por Fusca, fala sobre o amor pelo modelo, que ele cultiva desde a infância

Por: Redação

Emerson Renato

O reparador Emerson Renato, hoje aos 39 anos é reconhecido como um dos maiores especialistas em mecânica de Fusca no Brasil

Os portões da oficina Concept Car Motores, no Centro de Guarulhos, na Grande São Paulo, estão sempre fechados. Nem de longe existe a movimentação característica de um local onde se reparam veículos. Mas clientes é que não faltam para o proprietário, o reparador Emerson Renato, 39 anos.

Aliás, quem quiser algum serviço tem que se programar, pois a Concept Car já tem agenda até o final do ano. Do lado de dentro, entende-se a razão da fila de espera. Perfilados, reluzentes Fuscas de várias e cores e anos de fabricação, além de alguns modelos Gol, estão estacionados num piso impecavelmente limpo – não há respingos ou manchas de óleo.

Os carros pertencem a clientes que tratam seus veículos como verdadeiros objetos de culto. O Renato, como é mais conhecido na Grande São Paulo, cabe deixar essas máquinas com a mecânica sempre em estado de perfeição.

O reparador é reconhecido como um dos maiores especialistas em mecânica de Fusca no Brasil. Ele fez sua fama em encontros de colecionadores e integrantes de clubes do Fusca. Em sua oficina, só há carros fabricados pela Volkswagen. Ele faz desde pequenos consertos até transformação de motores – sua maior vocação.

Renato é capaz de deixar o legendário motor Boxer a ar 1.300cc, que equipou quase todas as gerações de Fusca, com 520 cavalos. É força descomunal para um propulsor que foi projetado para ter entre 40 e 60 cavalos de força.

É que a maioria dos clientes da Concept Car gosta do estilo disseminado pelo mundo que busca acrescentar a Fuscas equipamentos da Porsche, marca de status do grupo Volkswagen. Rodas, volantes, acabamento dos assentos, tudo é modificado para deixar a aparência dos antigos Fuscas assemelhada à dos esportivos da Porsche.

“Se você quer ter um visual de um carro esportivo, não faz sentido ter um motorzinho de 40 hp . Por isso, tratamos de acrescentar força ao Fusca”, diz Renato, que compra peças originais. Não faltam componentes para deixar afiada a mecânica dos antigos Fuscas.

Seu trabalho começou como hobby a partir da paixão de infância pela marca Volkswagen. Aliás, todos os seus próprios veículos até hoje são da marca. “Ter um Volkswagen para mim é como estar bem vestido. É uma paixão com a intensidade de uma comida agradável ou do time de futebol do coração”, acentua Renato que deu a Notícias da Oficina a seguinte entrevista:

Notícias da Oficina – A sua oficina trabalha de portas fechadas?

Emerson Renato – Atendo a uma clientela diferenciada. São pessoas apaixonadas por modelos Volkswagen, principalmente Fuscas – alguns deles verdadeiras relíquias. Faço desde simples manutenção até transformação de motores. A maior parte do meu trabalho envolve projetos, que podem custar de R$ 5 mil a R$ 25 mil.

NO – Mas por que Fusca?

ER – É minha paixão desde a primeira infância. A Volkswagen é minha segunda pele. Esse trabalho começou como hobby e virou dedicação profissional – há dez anos toco a Concept Car.

NO – Você trabalha com todos os motores Volkswagen?

ER – Sou mais especializado no motor Boxer a ar. Mas entendo bastante da linha HP também. A mecânica do Volkswagen ficou marcada pela facilidade da manutenção. Realmente, a marca ficou conhecida entre os brasileiros pela robustez e facilidade de manutenção de seus veículos, principalmente o Fusca. Muito mecânico mexia no motor Boxer, mas só alguns o conhecem a fundo. Pela simplicidade, ele parece ser fácil. Mas tem alguns segredos que o tornam difícil. São pontos de acertos, alguns segredos, que poucos dominam.

NO – Como você descobriu isso?

ER – Montando e remontando inúmeros motores. Retíficas malfeitas, apertos de mais ou de menos, ajustes de parafusos, entre outras especificidades, quando não bem feitas podem resultar em problemas, vazamentos. Por isso, a Concept Car é referência entre clubeiros e fãs de Fusca.

NO – Estes veículos que você conserta são de uso do dia a dia?

ER – A maioria não. Mas tenho alguns clientes que só andam de Fusca. Outros gostam tanto da marca que têm modelos mais novos Volkswagen, como New Beatle, Passat, Golf e até Audi. Mas gostam mesmo é de seus Fusquinhas. A maioria dos veículos é usada para encontros dos clubes de fãs e colecionadores nos finais de semana em vários pontos do estado de São Paulo e até mesmo do Brasil.

NO – O visual dos carros parece bem incrementado

ER – Em matéria de apaixonados por Fusca, há de tudo. Existem os extravagantes, que gostam de cores exóticas, enfeites, mais à feição do tunning. Outra parcela significativa é a dos originalistas. Tudo no veículo tem de estar como quando o carro saiu da fábrica. Outra parcela, a que me identifico e onde capto mais clientes, vem do german-look. É um estilo difundido no mundo inteiro – Japão, Europa, Estados Unidos e América do Sul. O objetivo é deixar o Fusca como um Porsche. Então, buscamos incrementar os motores. Se você quer ter um visual de um carro esportivo, não faz sentido ter um motorzinho de 40 hp.

NO – Mas a estrutura do carro aguenta tamanho motor?

ER – É claro, tem de ser feito reforço na estrutura. Aí já entram outros especialistas em carroceria.

NO – Mas você não trabalha em outros produtos Volkswagen?

ER – Como falei, meu foco é Fusca. Mas, esporadicamente, fazemos trabalhos em modelos mais atuais. Gosto de acompanhar a evolução dos motores Volkswagen. Por isso, é interessante mexer em alguns modelos mais novos de vez em quando.

NO – Você também tem Volkswagen?

ER – Só tenho Volkswagen. Não me sinto bem em outro veículo que não seja da marca – de preferência modelos mais antigos. Tenho parentes e amigos que até brincam comigo. ‘Por que você não compra carros de outras marcas, há tantos novos modelos’. Mas eu sempre respondo que para mim a Volks é uma roupa que me cai bem, uma comida saborosa, uma paixão como um time de futebol. Não me sinto satisfeito em outro carro que não seja um VW.

NO – Como você vê a marca Volks no Brasil?

ER – Ela ainda cultiva uma imagem muito forte entre os clientes e os reparadores. Seus produtos sempre passam a imagem de robustez e confiança – um trabalho que a marca começou desde quando chegou ao Brasil na década de 1950. Parte desta imagem deve-se muito ao Fusca, que é um carro que vai a todos os lugares.

NO – Há dificuldade do carro mais antigo passar no controle de inspeção de poluição em São Paulo?

ER – Olha, o carro tem de estar muito bem ajustado. Vários clientes vêm aqui para que façamos toda a manutenção correta antes de passarem pela vistoria. Com tudo certinho, os antigos Fuscas podem ser licenciados numa boa. Agora, os motores que nós transformamos de 40 hp para 530 hp, nenhum passa. Nós estamos brigando por uma mudança na legislação para carros especiais. Já que são modelos específicos e não são usados no dia a dia. Não faz sentido deixar de licenciar esses automóveis que não vão poluir as cidades.